A Paróquia

Nesta página iremos contar um pouco da história de nossa paróquia e Igreja Matriz, fatos relatados pelo saudoso Frei José Corteletti. Que foram publicados no jornal paroquial nos anos de 2006, 2007 e 2008.

O inverno era intenso. Lá em baixo no início da derrubada, bem perto do rio que fumegava de tanto frio, via-se altaneira a árvore da santa padroeira.

O primeiro quadro de Santa Teresa de 35×25 cm fora substituído por uma pequena imagem da mesma Santa que uma senhora havia comprado no porto de Havre, na França, antes do embarque para o Brasil. Em seu lindo nicho, enfeitado com flores sempre frescas, o robusto pau-peba continuava a servir de Santuário.

Numa tarde de primavera no 1875, depois da reza do terço, o líder religioso dos imigrantes falou em alta voz, no meio dos devotos: “Nós já temos nossas casinhas, vamos construir uma para o Senhor também”. Todos bateram palmas com alegria. Ainda não havia padre na Colônia. O líder Virgilio Lambert, que sempre tomava a iniciativa dos acontecimentos, foi até o Vice-Diretor de Terras, Von Lipes e este indicou um terreno situado no morro da matriz atual mais ao alto, para a construção da primeira capelinha de Santa Teresa. Tudo o que os imigrantes faziam levava a marca da intrepidez. Fincaram os esteios, estenderam as vigas lavradas, correram as ripas e só faltava a cobertura. A insatisfação foi quase geral. O povo reagiu contra o local que era de difícil e penoso acesso. Derrubaram as paredes e levaram os esteios para perto do rio e do comércio, mais ou menos entre o cartório do Mattedi (residência da Regina Mattedi e o Bradesco hoje, ou melhor, onde é o pátio da Creche). Limparam o local na planície, se é que podemos chamar de planície, perto do rio que corta a Vila. No largo salvaram uns pés de palmito e a área da nova capelinha estava linda.  Parecia uma terra nova preparada para o plantio.

Outras levas de imigrantes vinham se ajuntando aos demais. Em junho chegou também o primeiro padre para a Colônia, vindo de São Mateus, Padre Domenico Martinelli. Aproveitaram o terreno já limpo e, debaixo dos pés de palmito ergueram um tosco altar onde foi celebrada a primeira missa em Santa Teresa, no dia 27 de junho de l876.

Até esse dia da missa a intenção dos fiéis era erguer ali a capelinha; mas nem esse local agradou por ser muito baixo e exposto às enchentes. Quiseram então fazer a construção na estrada de São Pedro, hoje rua São Pedro, a que sobe a ladeira íngreme ao lado da matriz, logo ao alto: mas ali também não agradou. Outra vez arrancaram os esteios e os transportaram nos ombros, pela estrada que dá para Timbuí, até o pasto do Jerônimo Vervloet (para cá um pouco da entrada do bairro Dois Pinheiros e o supermercado Merkal) “Acontece, porém – assim narraram os primeiros imigrantes ao historiador, Frederico Muller, que ao passo que as obras iam adiantando, cresciam também as opiniões contra esse local, e tanta foi a oposição, que mais uma vez demoliram tudo. Antes disso, quis o Padre Martinelli celebrar ali uma missa. Mesmo nas condições em que se achavam as obras”. Arrancados novamente os esteios, levaram-nos para o local onde se acha a Matriz atual, e então levantaram a casa de Deus, a primeira capelinha de Santa Teresa, concluída e inaugurada em l880.

Já estamos nos idos de 1877 e nossa capelinha ainda não tinha seu lugar. Eram passados quase três anos da presença dos imigrantes e o líder Virgilio Lambert estava preocupado para se decidir aonde levar os esteios da casa do Senhor. Depois de tanto vai-e-vem com os esteios, sabem qual foi o lugar escolhido para a construção da igrejinha? Justamente no local da igreja matriz atual. Ótimo! É um lugar ideal, nem sujeito a enchentes e de acesso relativamente fácil.

Nesse tempo os imigrantes trabalhavam três dias para o governo na abertura das estradas de acesso aos lotes sorteados e três dias para eles mesmos a fim de produzirem o próprio alimento. No início, quando chegaram, o governo ordenara que trabalhassem quinze dias nas estradas e quinze dias nos próprios terrenos, recebendo feijão, farinha, arroz e carne seca. Foi após um levante, ou melhor, protesto com ameaças dos colonos diante das autoridades, que o diretor geral da colonização, Sr. Santana Lopes, e o vice-diretor de terras, Von Lipes, decidiram estabelecer três dias de trabalho comunitário e três livres, recebendo em troca algum benefício.

Então os colonos deram-se à construção da igreja às expensas do governo, isto é, trabalhando nos três dias comunitários. Com raça e muita fé os trabalhos iam bastante adiantados, quando chegou a notícia da emancipação dos imigrantes, ou seja, sua plena liberdade de trabalho e iniciativa. Não tralhavam mais para o governo e nem recebiam dele a alimentação. Daqui por diante os trabalhos da igrejinha eram tocados às custas dos próprios imigrantes e, de esmola em esmola, concluíram eles mesmos nosso primeiro templo e católico de Santa Teresa. Simples e humilde, de madeira e estuque, a igrejinha parecia um brinco pendurado no morro. Era branquinho, mostrando ao natural os esteios e as peças horizontais lavradas, tudo bem coberto com taboinhas sobrepostas aos caibros e ripas. O assoalho era feito de tábuas largas que iam de comprido, da porta ao altar rústico e todo de madeira de lei. No centro do altar, em posição de destaque, sobressaia o tosco e humilde tabernáculo, também de madeira maciça, encimado de uma pequena cruz preta, sem o crucificado. Concluía o monumento concreto da fé do imigrante uma porta de entrada relativamente grande, duas janelas com formato de meio círculo em cada parede lateral e, no eitão frontal, uma janela redonda com vidraças assim como as quatro janelas laterais. Na parte mais alta da cobertura de duas águas, uma cruz de madeira bem proporcional convidava o viandante que por ali passasse a benzer-se com o sinal da fé.

O líder religioso dos imigrantes, Virgílio Lambert, tinha suas arestas com o vice-diretor de terras e, por ocasião da escolha do nome da nova pátria, o trentino justo e muito devoto, tudo fez para vingar o nome do padroeiro de Trento, São Virgílio, que além de levar o seu nome, a festa religiosa cai justamente no dia 26 de junho, data da fundação de Santa Teresa. Liderados por ele, muitos imigrantes que na maioria eram trentinos, queriam que nossa cidade se chamasse São Virgílio e não Santa Teresa.  De um jeito ou de outro, o Lambert homenageou seu santo. Se a padroeira do templo é Santa Teresa, o mesmo foi dedicado a São Virgílio, em cuja fachada se lia a inscrição: DUOMO DEDICATO A SAN VIGILIO, com letras bem grandes.

Na parede, acima do altar, as mulheres da comunidade não colocaram nem o primeiro quadro da santa que media 35 x 25 cm nem a pequena imagem trazida da França por dona Thereza Roatt, a qual media 35 cm de altura e que substituíra o quadro da Santa no oco do “pau-peba”, mas sim um quadro bem maior de Santa Teresa, de 67 x 50 cm. Este quadro, com a chegada da imagem da mesma santa, foi levado para a casa de dona Anna Corona Bellumat e hoje é conservado na residência de dona Clementina Bausen Belumat, casada com João Baptista Belumat (falecido), neto de dona Anna Corona Bellumat.

No dia 26 de junho de 1880 com a participação da quase totalidade dos imigrantes da Vila e presença das autoridades constituídas, o Padre Domenico Martinelli deu a bênção solene no primeiro templo de Santa Teresa e, em seguida, foi celebrada a primeira missa.

Depois levantaram ao lado da igrejinha um modesto campanário cujos sinos foram doados pelo Imperador D, Pedro II e que ainda servem à atual matriz. Tudo isto é o que nos relatam as testemunhas oculares da época, entrevistados pelo primeiro historiador de Santa Teresa, o autor de “Factos Históricos e Fundação de Santa Thereza” (Edição 1925), ano comemorativo do cinquentenário do sorteio dos lotes, data oficial da fundação de nossa terra querida. 

Final de século 1898. O “pau-peba”. Nosso primeiro santuário, não existe mais. Tudo foi mudado assim tão de repente! As avezinhas barulhentas e desconfiadas só cantavam lá no alto das matas e, de vez em quando, em festa e alvoroço, sobrevoavam e chamavam a atenção dos moradores. Mesmo o rumorejo do São Lourenço não era mais tão percebido pelo vale a baixo, ao passar por detrás das casas e sobrados que iam se esticando, seguindo mais ou menos o traçado do rio. Era bonito ver a igrejinha com seu campanário humilde e tosco no sopé do morro se mostrando aos habitantes da Vila e, todas as tardes, os dois sinos imperiais convidavam os devotos à prece da Ave-Maria.

Muitos chefes de família haviam morrido! muitas mães! Muitas crianças e muitos adolescentes e jovens! A cada herói que caia, os dois sinos, em toques fúnebres, iam chorando não só a dor da família enlutada mas de toda a Vila que com a voz respeitosa, comentava o triste fim. O caixão mortuário era feito por algum carpinteiro amigo e forrado com morim da cor que caracterizasse a faixa etária do finado ou seu estado civil. Pelo menos três vezes ao dia os sinos dobravam e a Vila silenciava reflexiva. Como era triste…! o enterro transcorria em dois tempos: o primeiro, da casa até a igreja cantava a Missa de “Réquiem” mais o Oficio dos defuntos a três vozes masculinas, sendo a terceira voz muito grave e, na Missa de corpo presente, não havia quem não chorasse quando o Padre iniciava o “Liberame” intercalado com o coto. Então começava o cortejo fúnebre para o cemitério e tão silencioso que dava para se ouvir o batido do pé, calçado ou não, na terra, misturado com o mais triste lamento humano. Quando o féretro atingia a porta da igreja, começavam os sinos seu canto oprimido, a cantoria no puro latim e as orações em italiano, compondo um todo místico e misterioso. Descia a ladeira da igreja e, logo em baixo, ali perto do “Bar Elite” (hoje), atravessava a ponte estreita de madeira e o cemitério se achava bem pertinho dali onde existia uma pequena fábrica de cerveja, uma máquina de pilar café e por ali mesmo, mais tarde, a usina elétrica da Vila. É este o lugar do primeiro cemitério de Santa Teresa.

1898 foi um amo muito especial para os imigrantes italianos e seus filhos que levavam na alma a fé trazida do além-mar e a praticavam, no dia a dia, através da luta constante e confiança na vitória. A igrejinha se tornara uma caixinha de fósforo para acolher tantos fiéis na reza do terço e aos domingos e dias santos, assistirem á missa, sempre atentos aos ensinamentos do padre. O bispo diocesano, S.Excia. D. João Batista Correa Nery, tinha marcado a Visita Pastoral para o dia 25 de fevereiro de 1898. O P. Marcelino Maroni, capelão dos colonos, preparou bem a recepção oficial de seu pastor, conforme o Ritual Romano. Todo o povo da Vila e do interior aguardava esse grande dia. Dia da criação da Paróquia Santa Teresa.

Com todas as deficiências, a igrejinha de 1880 era nossa Igreja Matriz, a partir de 1898. Agora, antes de continuar a história, quero esclarecer uma dúvida, ou melhor, confirmar a verdade que me atormentava e sobre a qual eu preferia passar por cima: não era Santa Teresa d’Ávila a padroeira da primeira igrejinha com o campanário ao lado, mas sim Sagrado Coração de Maria. Foi no dia da criação de nossa Paróquia que a igrejinha, então elevada à Igreja Paroquial, fora declarada oficialmente Igreja Matriz Paroquial, tendo como padroeira Santa Teresa d’Ávila, cuja escolha remonta aos primórdios da imigração italiana.

 Durante a Visita Pastoral em 1898, o Sr.Bispo ministrou mais de duas mil crismas e distribuiu mais de oitocentas comunhões. Estabeleceu os limites da nova Paróquia que, “até ulterior deliberação, obedeciam aos mesmos limites civis: Afonso Claudio, Santa Isabel, Cachoeiro de Santa Leopoldina, Nova Almeida e Linhares. 

Antes de retornar a Vitória, S. Excia deixou escritas de próprio punho no Livro do Tombo da Paróquia algumas recomendações a serem seguidas; entre outras: que “a língua a ser empregada oficialmente nos atos paroquiais, de hoje por diante, seja a portuguesa. Nesse idioma se faça aula de catecismo e instrução ao povo; nenhum outro catecismo seja usado a não ser o Diocesano, podendo, se for necessário, o Revdo. Vigário fazer uma pequena edição em italiano para as famílias italianas, contanto que as crianças nascidas no Brasil aprendam o catecismo em português”. E com veemência repetiu: “a fundação da Igreja Matriz com a maior pressa possível”.

A vida religiosa na Vila e no interior ia progredindo e os paroquianos motivados com a visita do Bispo, queriam participar de tudo, desde os pequenos até os grandes. Há vários anos a igreja possuía um harmônio (pequeno órgão de palhetas e não de tubos) que era tocado pelo Exmo Sr..Juiz de Direito Dr. Thiers Velloso, acompanhado por uma flauta. O coro, só de vozes masculinas, cantava em gregoriano e também o canto polifônico. O maestro era o flautista Luís Angeli, o instrutor de música Giuseppe Paoli, com muitos cantores: os Angeli, os Paoli, Avancini, os Filippi, os Bellumat, Scalzer, os Martinelli, seis Salviato, os Bortolini, Donati, os Tomasi, os Bassetti, os Pratti.  A maior parte das comunidades do interior tinha também seu coral. As celebrações religiosas eram muito bonitas e solenes; e, nessa época, os coros cantavam em latim, até a quatro vozes, e o povo em geral, as músicas populares trazidas da Itália e em italiano. Como eram animados! “Bei tempi quei”…!

No dia 18 de maio de 1905 deu-se início a primeira Visita Pastoral do novo Bispo do Espirito Santo, D, Fernando de Souza Monteiro, a jovem paróquia de Santa Teresa. Acompanharam-no três missionários para realizarem as Santas Missões. Pela estrada de ferro Vitória-Diamantina desembarcaram em Timbuí, onde o Pároco frei Eugenio a cavalo com muitos outros distintos cavaleiros de Santa Teresa os receberam festivamente. Chegaram a Santa Lucia e aqui começou a Visita Pastoral e, depois de poucos dias, foram para Santa Rosa, na Comunidade da Penha, uma légua perto de Santa Teresa, continuando a Santa Visita. Enquanto concluíam o apostolado na Penha, a cidade se engalanou toda, para receber pela primeira vez o novo Pastor: suas ruas caprichosamente limpas, ornadas de palmeiras, de floridos e artísticos arcos triunfais tendo seu trajeto coberto de flores, folhagens e confetes, desde o início da Vila até a residência dos frades e Escola Paroquial.

  1. Fernando ficou encantado com a viagem da Penha para Santa Teresa e descreveu-a poeticamente. Na entrada da Vila, frei José Antonio com uma multidão de teresenses aguardavam a chegada do bispo e sua imensa comitiva, todos a cavalo. Precisamente ás cinco horas da tarde estavam á porta da Vila, e a multidão de braços abertos acolhia seu Pastor, quando um grupo de gentis crianças com singela e amável saudação o recebeu em nome de todos. Em seguida toda a multidão embalada pelas melodiosas tocadas da banda “Vencedora” e de tochas acesas se dirigiu à Casa Canônica, Moradia dos frades. Tudo foi encantador. Era a noite de 20 de maio que vinha chegando.

A Visita Pastoral canônica continuou e foi riquíssima de frutos espirituais. Encerrando-a fora da igrejinha, na esplanada, pois a nova Matriz estava ainda nos alicerces concluídos, sua Excelência, diante da multidão deixou um último recado: “Ordenados que seja fechada a atual Matriz em razão do estado de ruína em que se acha e que sejam retiradas desde já as santas imagens, as alfaias, a pia batismal e todos os objetos sagrados, que serão cuidadosamente conservados pelo Revmo. Vigário na residência paroquial até que se conclua a nova Matriz…” Era dia nove de junho de 1905.

…E assim a igrejinha dos primeiros imigrantes, do campanário, de 25 anos de inaugurada, nunca mais acolheu um devoto! Onde celebrar..?

Mulheres, homens, jovens e crianças acorriam alegres e festivamente ás celebrações. Cada domingo era verdadeiramente um dia de festa. Na frente da igreja, dentro e fora, visitando as obras, tudo isso resumia o assunto principal da conversa. Todos estavam satisfeitos com a construção de sua igreja. A majestosa torre ainda não existia, mas no lugar do campanário da igrejinha branca, adaptaram os dois sinos históricos que semeando sons festivos pelos vales do Timbuí, convidavam os oradores para louvar o Criador.

Nas festas principais do ano, por determinação do Bispo Diocesano, antes de começar a celebração da missa, o sacerdote e todos os fiéis recitavam com voz forte e clara os Atos de Fé, de Esperança, de Caridade e o Ato de Contrição. Até as crianças e adolescentes faziam escutar suas vozes. Era muito bonito de se ouvir..!

Em 1912, com a crise do café em baixa, reunidos os frades e os chefes de família, acharam por bem modificar a planta original da igreja e, com a aprovação do Bispo Diocesano, foi retirada a cúpula que era muito cara. O mesmo arquiteto Guilherme Oates, não só modificou a planta, como também dirigiu gratuitamente os trabalhos. Assim o Vigário, com o apoio maciço dos fiéis, levou à frente a monumental obra.

O ano de 1914 foi marcante na história da construção da Igreja Matriz. Em primeiro lugar ficou pronta a cobertura com o zinco doado pelo senhor Jeronimo Vervloet. Em seguida também o assoalho de madeira de lei, que foi pago, na sua maior parte, pela congregação Nossa Senhora Auxiliadora. Que grandioso salão! As mães levavam seus filhinhos a reza ou a Missa, mas pensam vocês que elas deixavam soltas as crianças para correrem e brincarem no amplo salão? Quanto choro por isso! Foi também inaugurado o primeiro altar, o de S~~ao Francisco de Assis, oferta de um benfeitor.

Surgiu um problema que pouco, não virou casus belli (um caso de guerra). E que, ainda no tempo do primeiro vigário, o P. Marcelino Maroni havia trocado o terreno ao lado decima da igreja (a esquerda de quem entra nela), com um pertencente ao Governo Municipal, atrás da igreja; e sobre esta área tinha sido projetada a futura casa paroquial. Como o negócio fora feito de boca (orétenus), com o Prefeito da época, o atual, sabendo que a Paróquia não tinha escritura, quis apossar-se desta área também, mesmo que já tinha vendido aquela que era da Paróquia para o senhor Fermo Vaccari, onde construiu sua casa de sobrado, que existe até hoje. Nessa questão, entrou cerca de arame farpado por parte de frei e embargo pelo lado do Governo do Município (assim era chamado, na época, o Prefeito). Muita cuanga e tensão. Graças a Deus, no fim tudo deu certo, mas com uma exigência do Governo Municipal: que o paredão de pedra e o passeio ao longo de toda essa área, na Rua Muniz Freire (hoje Coronel Bonfim Junior), fossem feitos pela Paróquia, sem ajuda da Prefeitura. Para o bem da verdade, disse o frei, tanto o paredão quanto o passeio eram necessários para garantir os alicerces da Igreja. Tudo foi inaugurado beste ano de 1914.

As paredes, as colunas, os arcos, as naves laterais e a central, tudo estava erguido, menos a abóboda e o telhado. Uma grande construção. A maior de Santa Teresa, em 1912. Mas tudo ainda nas paredes de pedra crua.

As duas capelinhas, a da casa canônica (residência dos frades e Colégio) e a de Nossa Senhora da Conceição do Lambert, (há dois anos sem as celebrações oficiais), foram cada vez mais ficando mais apertadas e nelas não cabia ninguém, nas intempéries teresenses. O Vigário resolveu, de imediato, cobrir com folhas de zinco a metade da igreja nova. O zinco fora doado pelo senhor Jerônimo Vervloet e a Prefeitura Municipal, através de seu presidente, Carlos Avancini, concorreu com um conto de réis – que na época era uma significativa quantia. Prepararam uma capela interna, onde se desenvolviam todas as celebrações litúrgicas. Eram as senhoras que limpavam e enfeitavam o recinto sagrado. Os fiéis não deixaram de frequentar a igreja: pelo contrário, eram mais assíduos do que antes ás rezas do mês de maio com as lindas coroações de Nossa Senhora, ás celebrações da Semana Santa, do mês do Sagrado Coração de Jesus e das festas, em que participavam também nas famílias de toda a redondeza. O povo falava assim: “Agora é tudo na igreja nova”.

Frei José Antônio de Ferla, o incansável e santo Vigário, estava muito preocupado, pois foi uma época de grande crise por causa do preço do café, que caiu lá embaixo. Como continuar a construção? De fato, teve que paralisar a obra e magoado assim se expressou: “Apesar de nossa boa vontade em querer continuar…, até quando tudo vai ficar parado? Só Deus sabe!”.

E fez um balancete geral das obras da Igreja Matriz de Santa Teresa, desde 1901 a 1911. Eis em resumo a prestação de contas, em Réis:

Gasto em dinheiro 40.943.822

Em material no valor de 8.559.360

Em trabalho no valor de 6.000.000

Custos das obras de 1905 a 1911 55.803.182

Custo dos alicerces e plataforma 1901 7.200.000

Custo Total 63.003.182

Em 1915, frei José Antônio de Ferla tendo sido confirmado Pároco de Santa Teresa, chegaram da Itália mais três jovens frades: frei Isaias de Ragusa, frei Jacinto de Palazzolo e o irmão leigo frei Félix de Vizzini. Assim, depois de quase 12 anos de trabalho intenso, frei José podia ter férias, rever sua pátria e os saudosos pais, parentes e amigos de Sicília.

Os trabalhos da construção da igreja não pararam mais. Partes importantes iam sendo concluídas e inauguradas. Frei José Antonio de Ferla era Pároco incansável, modelo de sacerdote, de religioso e missionário.

A bomba explodiu. A notícia chegou através de um telegrama sucinto e lacônico, mais ou menos nestes termos: “tragicamente frei José Ferla sepultado águas azuis Oceano Atlântico”. Era uma tarde do dia 5 de março de 1916, nas proximidades de porto de Santos Vitória. Voltava para continuar a missão em Santa Teresa. O navio de bandeira espanhola “Príncipe de Astúrias” naufragou com 654 passageiros dos quais 477 afogados, entre eles nosso estimado frei José A. de Ferla. Seu companheiro de viagem, irmão de hábito e conterrâneo, frei Eugênio de Módica se salvou e, em 1920, veio trabalhar em Santa Teresa, como diretor do colégio Ítalo Brasileiro e Vigário Coadjutor.

A consternação de Santa Teresa foi como quando uma família perde sorrateiramente a mãe ou o pai amoroso. Os jornais do Brasil noticiaram e os do Estado salientavam a irreparável perda de nosso querido frei José. Faleceu com 41 anos de idade. Adorava suas únicas pátrias: a Itália e Santa Teresa. A igreja Matriz, para cuja construção o frei tanto lutara, ficou apinhada de fiéis da Vila e do interior, com todas as autoridades representativas dos seguimentos sociais e políticos do município, vindos para a Missa de 7º dia. Foi solenemente celebrada com três padres e o sermão fúnebre proferido por frei Jacinto de Pazzolo, no dia 14 de março de 1916. Também em várias capelas do interior cantaram o Oficio de defuntos.

Frei José Antônio de Ferla? Querem saber? _ chegou a Santa Teresa no dia 19 de março de 1904. De estatura baixa-baixa, inteligente e culto. Ocupava os momentos livres lendo livros de estudos teológicos, sobretudo. Foi Coadjutor e Pároco, Professor e Diretor do Colégio dos Padres “Rita Beverini Machiavelli”, mais tarde “Italo-Brasileiro”, e Superior casa. Aqui trabalhou infatigavelmente onze anos sem férias. Austero consigo mesmo, mas acolhedor e amoroso com todo o povo, que o tinha na mais alta estima e admiração. Propagador da boa imprensa e inimigo da literatura envenenada.

Fundou piedosas Associações, vicejantes na sua época. Atendia aos moribundos a qualquer hora do dia e da noite, cortando a pé ou a cavalo caminhos e trilhas, vazando lareiras e matas ainda virgens.

Querem saber alguma coisa mais? Agora é a vez de vocês, habitantes de Nova Valsugana, São João de Petrópolis e de Santo Antônio. Falem de quando grassou a “bexiga negra” (1904) e o pequeno frei José Antonio fora, ao mesmo tempo, sacerdote e médico daquela pobre gente, desafiando a morte e o fedor insuportável dos infectos pelas chagas purulentas e mortíferas. Buscai, ó paroquianos, a história de vossas 26 igrejas bonitas que substituíram as primitivas capelinhas rústicas de vossas comunidades nascentes. Elas podem figurar hoje em qualquer centro urbano, com imponência. E nossa Igreja Matriz? No entanto a “flor da violeta” escondia-se na intimidade da modéstia e da humildade, dentro da túnica capuchinha.

Ninguém de nós o conheceu pessoalmente, mas se quisermos avaliar sua potência, basta verificar a esteira de benefícios e trabalhos deixados para a posteridade

Frei José Antonio Ferla, descanse em paz!

O ano de 1915 foi marcado pela presença de três novos frades, sendo um Irmão leigo. As obras da construção começava um período de grande progresso e, com a presença de laboriosos padres, o movimento paroquial só ia crescendo. Em agosto e setembro, pregaram as Missões na Paróquia vários frades capuchinhos, inclusive o Superior Regular da Missão frei Gaspar d Módica, o Visitador Diocesano P. Francisco Pimenta e o P. José Ludwico.

Frei José de Ferla foi passar as férias na bela pátria Itália. Então, no início de 1916, o próprio Superior Regular da Missão do Rio de Janeiro, o dinâmico frei Gaspar de Módica, fixou residência em Santa Teresa e foi provisionado Pároco desta freguesia e de Linhares. Em novembro foi projetada a estrada rodoviária de Santa Leopoldina – Santa Teresa, a primeira no estado do Espírito Santo. A escola Paroquial “Rita Beverini”, abriu suas portas e foi criado o Colégio Ítalo-Brasileiro, tendo como Diretor frei Jacinto de Palazzolo.

Nossa Igreja Matriz não teve uma inauguração oficial, mas por partes. A cada realização importante festejava-se solenemente como inauguração. Estas também não pararam mais. No dia 06 de abril de 1917 foi inaugurado o altar do Sagrado Coração de Jesus. O altar e a imagem foram doados pelos benemétrios benfeitores Sr. José Reisen e D. Maria Avancini Reisen. A rodovia Santa Leopoldina-Santa Teresa, iniciada no dia 11 de março deste ano, vinha avançando com força, de lá pra cá. A festa de Nossa Padroeira em outubro foi a maior até então. Tríduo solene com quermesses em prol das obras da Matriz. Rendeu soma superior aos expressivos seis contos de réis. Todo o forro em madeira estava bem adiantado assim como o reboco interno. Enquanto isso o Vigário com suas comissões efetivas, traçavam as estratégias para efetuarem uma grande campanha de arrecadação em dinheiro e café. Cada família da zona rural, com orgulho, deixava separada uma saca de café, num canto do paiol, para nossa Matriz nova. Quantas sacas de café!

Mais uma visita importante a Santa Teresa. O Núncio Apostólico D. Angelo Scapardini (Representante oficial de SS o Papa no Brasil) esteve em Santa Teresa no dia 25 de setembro de 1917 e no dia 26 celebrou a missa na Igreja Matriz e fez uma belíssima alocução em língua italiana, pois a igreja estava lotada de descendentes, filhos e imigrantes italianos. Motivo de tão grande visita: ver possibilidade de elevar Santa Teresa a diocese.

Mais uma inauguração. Resumidamente o 1º livro do Tombo da Paróquia assim relata: “no dia 31 de março de 1918, Domingo de Páscoa, foi inaugurado com toda a solenidade, que se pode imaginar, o Altar-mor de nossa Igreja Matriz de Santa Teresa”.

Não houve festa de inauguração, não. Primeiro ouviu-se na Vila um barulho estranho aos ouvidos de sua gente: nas curvas da estrada um automóvel, eram mais de um, buzinados e entrando na Vila como ilustres desconhecidos. Crianças, jovens, idosos, homens e mulheres, todos corriam para ver o milagre, um carro andando sem ser empurrado ou puxado por juntas de bois. Como?! E os veículos correndo, fazendo Upa! Upa! Entraram na cidade, que começava um pouquinho para lá do Banco do Brasil (hoje), seguiram até o capitel de Santo Antônio, fazendo o retorno e descendo a ladeira pela mesma rua, hoje Coronel Bonfim Junior, até a esquina, e entrou na Avenida Espirito Santo que termina no jardim (este não existia) e ai tomou a direção da rua do Banco do Brasil, outra vez. Assim percorreu toda a cidade de Santa Teresa da época. Dava gosto de se ver a alegria estampada nos rostos das pessoas, como se fosse a face única sorrido. O desenvolvimento e o progresso bateram de vez à porta de Santa Teresa! O foguetório começou e alarmou a cachorrada que fez a festa. Foi a primeira vez que entrou um automóvel em Santa Teresa. Era precisamente o dia 15 de agosto de 1918. Para o bem da verdade a estrada não estava ainda terminada e sua inauguração oficial se daria no dia 11 de maio de 1919.

No dia 16 de outubro de 1918, o novo Bispo do Espirito Santo D. Benedito Paulo Alves de Souza veio a Santa teresa para sua primeira Visita Pastoral e, de automóvel desfraldando a bandeira papal, foi recepcionado pelas autoridades locais e o povo, fora da Vila. Aproveitou o ensejo para dar a benção solene à rodovia Santa Leopoldina-Santa Teresa, ainda em construção. E às dezessete horas, ao som dos sinos imperiais, chegou à Casa Canônica, residência dos frades.

O jornalzinho da Paróquia, reservou um “Cantinho” para nossa história. Porém, a construção de nossa Igreja Matriz teve uma bela e longa história que não cabe toda de uma vez no “Cantinho”. Vamos continua-la passo a passo.

Se observar bem, há cem anos, a construção de uma igreja não era empreitada a uma firma e está, com prazo determinado para entregar a obra concluída; a edificação de uma igreja, então, representava e representa ainda hoje a força de uma comunidade de fé. Para mim é isto o que representa nossa bela Matriz de Santa Teresa. Continuemos então a caminhada do fervor religioso dessa gente narrada na história da construção de nossa igreja Matriz.

O vigário era o frei Luiz de Palazzolo que, em 1918, sucedera provisoriamente ao frei João Maria de Chiaramonte e, em 1919, recebeu a nomeação de Pároco por um ano.

Foi dia de grande solenidade o 14 de outubro de 1919. Sua Exa. Dom Benedito Alves de Souza consagrou o Altar-mor na Matriz e deu a benção à Pia Batismal. Saindo frei Luiz, foi provisionado Vigário o dinâmico frei Gaspar de Módica, que exercia também cargo de Superior Regular da Missão, residindo em santa Teresa.

Havia muito fervor e participação do povo nas comemorações litúrgicas. Frei Gaspar deixou escrito no 1º Livro de Tombo da Paróquia “foram celebrados todos os atos da Semana Santa, tendo-se feito o descimento da Cruz e a procissão do Enterro na Sexta-feira Santa”. Somente os que têm noção de como era celebrada a Semana Santa naquela época, podem avaliar a grandeza descrita nesses apontamentos do frei. Para solenizar o mês de maio, mês de Maria. Com toda pompa a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora fora colocada em trono artisticamente ornado e todo iluminado, sobre o grande altar-mor. Todos os dias, a reza do terço, leituras, canto da Ladainha e benção com o SS. Sacramento. No encerramento do mês, o espaçoso altar, desde o primeiro degrau até o alto, ficou todo encoberto de nuvens de papel de seda branco e azul bem clarinho e, no meio de muitas dezenas de anjinhos cantando cantos infantis e saudosos, era coroada Nossa Senhora, uma verdadeira apoteose celestial. A igreja parecia nada mais que uma caixinha de fósforo de tão pequena ficara para conter a multidão dos fiéis, vindos também do interior. Nesses anos se revestiam de muito ardor as celebrações religiosas!

Em 1920, aos 23 de dezembro, confirmado frei Gaspar como Vigário, foi provisionado como auxiliar, frei Caetano de Agira, recém chegado da Itália e, em 1921, foi provisionado Vigário Coadjutor, frei Mansueto de Gratteri que exercia também o cargo de Diretor do Colégio Ítalo-Brasileiro.

Pelo Vigário foi escolhida uma comissão para as obras da Matriz; Fabriqueiro: Antonio Ruschi; Conselheiros: José Eugênio Vervloet, Carlos João Avancini, José Bonfim e José Salviato; Diretor de obras: José Ruschi. Tudo estava bem estruturado e, em fins de setembro de 1921, foram iniciados os trabalhos para a conclusão da Igreja Matriz, Principalmente a fachada com a torre imponente, a fim de estar pronta para a celebração do Centenário da Independência do Brasil, no próximo ano, 1922.

A grandiosa festa de Santa Teresa no dia 15 de outubro de 1921, precedia de solene tríduo, apresentou uma significativa novidade para nossa história. Na procissão foram levadas três lindas imagens recém chegadas da Itália: Santa Teresa (a atual), São Roque e Santa Lúcia. A de Santa Teresa fora doação de D. Barbara Broilo; a de Santa Lúcia, oferta de D. Lúcia Avancini Vervoet; e a de São Roque, paga com ofertas angariadas pela senhora Carolina Sessa. Deu muita gente mesmo, até de Santa Leopoldina veio uma caravana de carris em festa, aproveitando a belíssima rodovia de Santa Leopoldina a Santa Teresa, inaugurada no dia 11 de maio de 1919. Muito foguetório intercalado com descarga s das garruchas e revólveres, expressão de firmeza e intrepidez de um povo heroico e vencedor.

1922 -Centenário da Independência do Brasil! Foram previstas muitas inaugurações na Igreja Matriz ao longo desse ano cívico, que fora intensamente propagado por todos os meios de difusão da época, principalmente nas escolas, e comemorado efusivamente com manifestações populares. Em Santa Teresa o pároco era frei Gaspar de Módica; Coadjutor, frei Mansueto de Gratteri; sendo diretor do Colégio Ítalo-brasileiro, frei Eugênio de Módica; Mestre de disciplina e professor do Colégio, frei Diodo da Bahia. Todos se ajudavam com muita disponibilidade.

O ano começara trazendo uma notícia que sempre consternou aos católicos do mundo inteiro: morreu Papa Bento XV, denominado Pontífice da Paz, no dia 21 de janeiro. Em três horários diferentes do dia, os dois sinos tristes da igreja dobraram doloridos. Na Matriz, Missa solene fúnebre com três padres, cantada e com Oficio de defuntos, também cantado. Já no dia 6 de fevereiro, sobe da chaminé festiva do Vaticano a fumaça branca anunciando: “Habemus Potificem” (temos um novo Pontífice), Pio XI. Alegria geral espalhada pelo mundo inteiro!

No dia 19 de fevereiro, com toda a pompa possível, foi inaugurado o altar de Santa Lúcia, construído artisticamente a expensas de D. Lúcia Avancini Vervloet que, também doara a linda imagem vinda da Itália. Igreja repleta, a missa cantada foi presidida pelo Ministro Provincial de Siracusa-Sicília, frei Francisco de Mineo, sendo diácono frei Gaspar, subdiácono, frei José de Alatri (Vigário de Colatina) e funcionou como cerimoniário o frei José de Castrogiovanni. A banda de música “Vencedora” de Santa Teresa, uniformizada, desde cedo preencheu o tempo com lindos dobrados, valsas e canções populares e, na hora solene da elevação eucarística, entoou a introdução comovente do Hino Nacional Brasileiro. E, depois da missa, a banda continuou a apresentar seu vasto repertório musical, sempre aplaudida pelo povo. Assim concorridos foram os dias da Semana Santa e, festivo o mês de maio e o dia de “CORPUS CHRISTI”, precedido de tríduo eucarístico.

7 de setembro! Centenário da Independência do Brasil. Além das comemorações cívicas, oficiais da sociedade, na Matriz toda enfeitada, torre alta, concluída e ornamentada como uma noiva para a festa, foram-lhe encimados, alguns dias antes, os dois velhos sinos imperiais e um grande de 157 quilos, doado pelo Sr. José Reisen, para, ainda na madrugada desse dia, anunciar a toda a população teresense a festa do Centenário da Independência do Brasil! Assim ele foi inaugurado. Daqui por diante alegremente, se fosse na hora do Angelus e nos dias festivos e, se fosse nos dias fúnebres de morte de algum filho ou de pessoa cara ou povo da terra, os três sinos, em compasso lento, infundiam no coração do povo a dor e, em seguida, o sino grande, fazendo solo, ia ledamente contando a idade do falecido! Era momento de reflexão…!

Nesse dia memorável, sob o toque festivo dos três sinos, foi inaugurada a majestosa torre de nossa Igreja Matriz. Mais. Na parte da manhã, antecedendo a missa solene cantada, foi inaugurado o altar de São Roque. Ainda por volta das 16 horas, com a presença do povo e as autoridades municipais previamente convidadas diante do SS. Sacramento exposto, cantou-se solenemente o hino de louvor e de agradecimentos a Deus, o “Te Deum Laudamus”; e, para finalizar o ato litúrgico, a Benção com o Santíssimo.

Outras inaugurações até o fim do ano do Centenário. Com grande concorrência de fiéis, no dia 13 de outubro, foi colocada a nova Via-Sacra e o ato religioso foi revestido de muita solenidade, tendo dois paraninfos para cada quadro. No dia seguinte, 14, foi inaugurado o trono definitivo de Santa Teresa, construído a expensas das senhoras Broilo, D. Anselma, D. Maria e D. Itália e, em seguida inaugurado o coro onde a “Schola Cantorum” (o coral) executava os cânticos religiosos. A mesma D. Anselma Broilo VErvloet ofertou a Matriz um precioso lustre com 16 lâmpadas elétricas cujo preço foi de um conto de Réis.

Contudo a fachada não estava toda acabada e frei Gaspar de Módica contratou o Sr. Baptista Bellini para a execução do resto da obra, com o compromisso de conclui-la para ser inaugurada na Páscoa de 1923. Para isso o frei deixou todo o dinheiro necessário com seu substituto, uma vez que ele teve de retornar ao Rio. Sem remuneração, como sempre, o engenheiro agrônomo José Ruschi dirigiu os trabalhos.

Lembrem-se de que nossa Igreja Matriz era, até então, o maior templo religiosos do Estado.

No dia 10 de janeiro de 1923 ás dez horas, tomou posse solenemente da Paróquia de Santa Teresa o Revmo. Pároco frei Jacinto de Palazzolo. Este manteve o ritmo acelerado nas obras da igreja. Em maio foram concluídos os trabalhos da fachada e atacada imediatamente a construção da escadaria, obra de suma necessidade e que, ao mesmo tempo comporia a beleza do conjunto arquitetônico, escadaria-fachada-torre, oferecendo ao público um lindo cartão postal. Os trabalhos da escadaria tomaram um ritmo forte, pois o dinheiro estava em caixa e a obra fora orçada em 6.000$000 (seis contos de réis), dos quais 2.000$000 angariados entre fiéis e 4.000$000 foram votados em lei pela Câmara Municipal.

Em 1895 Santa Teresa Fora elevada á comarca, o que quer dizer que toda a vida forense se processava aqui e não mais em Santa Leopoldina. Porém, em 1900, o governo estadual, por motivos políticos, havia supresso a comarca de Santa Teresa, voltando tudo para a antiga sede. Frei Jacinto fez questão de assinalar no I Livro do Tombo da Paróquia que no domingo, 8 de março de 1923, havia chegado a auspiciosa notícia do restabelecimento da Comarca de Santa Teresa e ele mesmo, frei Jacinto, convidou o povo e depois da reza do terço e canto da ladainha de Nossa Senhora, à frente de todos, percorreu em passeata as ruas da cidade, manifestando o regozijo. A instalação da Comarca se daria, com grandes festejos populares, no dia 7 de setembro desse mesmo ano 1923, quando também foram inauguradas a Casa de Caridade e a Casa da Exposição.

Estamos chegando ao término da construção de nossa Igreja Matriz, iniciada em 1902 e dá-la por concluída aqui, com a inauguração da escadaria de acesso, celebrada festivamente, no dia 1º de agosto de 1923. “A obra ficou sólida e elegante”, expressou-se o Vigário. Tanto o povo da cidade quantos os visitantes ficavam com sua beleza, olhando a escadaria e, erguendo mais os olhos, a fachada, até mirar no alto da torre a cruz indicando a eternidade. O povo da época apreciava muito a sua bela Matriz.

Eis um fato digno de nota: em 1923: concitados pelo Exmo. E Revmo. Bispo Diocesana, Dom Benedito, como aconteceu nas demais dioceses do Brasil, formaram-se comissões na sede de nossa paróquia e em cada capela do interior, a fim de angariar dinheiro para a construção do grande monumento do Cristo Redentor no alto corcovado, no Rio de Janeiro, então a Capital da República. Nossa contribuição foi de 1.350$000. Esta obra, inaugurada no dia 12 de outubro de 1931, é hoje declarada oficialmente, uma das sete maravilhas do mundo. Quer dizer então, caro paroquiano teresense, que pelo menos a unha do dedo mindinho do Cristo Redentor é um pedacinho de nossa gente que está para todo o mundo ver e admirar.

Coros leitores, ainda faltava o acabamento nos lados da Matriz com seus detalhes e, assim ficar toda prontinha para a Festa do Cinquentenário da Fundação de Santa Teresa. Para isso foram contratados profissionais vindos da Itália. Os frades arcaram com as despesas de estadia, o Sr. José Ruschi, Diretor das obras e os fiéis contribuíram generosamente.

Desde 13 de julho de 1924, o Vigário de Santa Teresa era o dinâmico frei Clemente Bonomo que, á frente dos trabalhos, concluiu as obras de nossa maravilhosa igreja Matriz, sem festa de inauguração, pois, ainda que seja dada por inaugurada, a obra de nossa igreja sempre continua…

Caros amigos leitores, assim como a Igreja, Corpo Místico de Cristo, é dinâmica (não Para), assim também o templo construído de pedra e tijolo com todas as suas partes vai sendo reformado e aprimorado, a fim de dar continuamente resposta a atualidade. E já em meados de 1925, a instalação elétrica foi toda reformada, recebendo cada capela lateral um lustre ornado de pequenas lâmpadas e cada quadro da Via-Sacra um braço com mais duas lâmpadas. E assim, no caminhar do tempo, aconteceu a troca do assoalho de madeira, e tantas coisas mais que devem ser elogiadas; alguma vez, também de acordo com a cabeça miúda do pároco, se chegou ao cúmulo de serem cometidos verdadeiros crimes contra a arte histórica de nossa bela Matriz, por pura ignorância. 

Fim.

Frei José Corteletti – Beppe