Na sociedade contemporânea, o pensamento da morte é frequentemente evitado e até mesmo silenciado. Vivemos em uma cultura que valoriza excessivamente a produtividade, o controle e a aparência de autossuficiência, afastando tudo aquilo que nos recorda a fragilidade da condição humana. A morte, nesse contexto, torna-se incômoda não apenas porque nos lembra que somos criaturas limitadas, mas também porque desmonta as falsas seguranças que construímos ao longo da vida e que nos fazem acreditar que somos senhores absolutos do tempo e da própria existência. Diante dessa realidade, o testemunho de Francisco de Assis surge como profundamente atual e provocador.

Ao contrário da mentalidade dominante, Francisco não foge do pensamento da morte, mas a acolhe como “irmã”, chegando inclusive a cantá-la. Esse gesto, longe de ser uma negação da dor ou do sofrimento, revela uma fé madura e profundamente enraizada em Deus. Para Francisco, a morte não representa o fim de tudo, mas o cumprimento do caminho, a passagem que permite a entrada na comunhão plena com o Criador. Ele compreende que a vida não é uma posse, mas um dom recebido gratuitamente e que, por isso mesmo, deve ser devolvido com liberdade e gratidão. Como ele próprio expressa em seus escritos: «Nada, portanto, retenhais de vós para vós mesmos, para que totalmente vos acolha aquele que totalmente a vós se oferece» (Carta a toda a Ordem 29, FF 221).

Nos últimos dias de sua vida, Francisco faz uma espécie de releitura espiritual de toda a sua história. Ao contemplar o caminho percorrido, reconhece a presença constante e a ação amorosa do Senhor em cada etapa. Por isso, no Testamento, repete quase como um refrão palavras que expressam essa consciência agradecida: «O Senhor deu a mim, frei Francisco… O Senhor deu-me tal fé nas igrejas… O Senhor deu-me e me dá uma fé tão grande…». Tudo é dom, tudo é graça. Até mesmo o nascimento da fraternidade não é fruto de um projeto pessoal, mas iniciativa divina:

Depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrava o que eu devia fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho (Testamento 1-14, FF 110-116).

Essa mesma atitude espiritual pode ser encontrada em Santa Clara de Assis. Ao escrever seu Testamento, nos últimos dias de vida, ela também reconhece Deus como o grande Doador, aquele que concede todos os bens e ao qual se deve render constante ação de graças, especialmente pelo dom da vocação. Clara e Francisco nos ensinam que a verdadeira riqueza não está em acumular, mas em reconhecer, agradecer e partilhar.

Celebrar os 800 anos da Páscoa de Francisco de Assis, portanto, não é apenas recordar um fato histórico, mas acolher um convite profundo à contemplação. Somos chamados a olhar para a nossa própria história pessoal e para a trajetória da Família Franciscana com um olhar de fé, capaz de perceber a presença e a ação de Deus em todas as circunstâncias da vida, inclusive nas mais difíceis e dolorosas. É também uma oportunidade privilegiada para agradecer pelos inúmeros dons recebidos, em especial pelo dom de Francisco de Assis e de sua experiência evangélica, que se transformou em um carisma vivo, plural e fecundo, expresso em diversas formas de seguimento e de apostolado.

Esse carisma, nascido da escuta fiel do Evangelho, continua a interpelar mulheres e homens de todas as culturas, dentro e fora da Igreja Católica. A simplicidade, a fraternidade, o cuidado com os pobres e com a criação, bem como a alegria de viver a fé, tornam Francisco uma figura universal e sempre atual.

Pouco antes de sua morte, Francisco dirigia aos irmãos palavras que permanecem como um apelo permanente à conversão:  Comecemos, irmãos, a servir o Senhor Deus, porque até agora fizemos pouco ou nenhum progresso» (1 Celano 103, FF 500). Mesmo ao final da vida, ele não se considera alguém que já chegou à meta. Pelo contrário, mantém vivo o desejo de recomeçar, de renovar-se, de voltar ao serviço dos mais pobres e marginalizados, como os leprosos. Sua Páscoa nos recorda que cada dia é uma nova oportunidade para recomeçar, para renovar nossa resposta ao chamado de Deus e para assumir, com humildade e alegria, a missão de testemunhar o Evangelho com palavras e obras.

Por fim, celebrar o trânsito do Pobrezinho de Assis é também recordar que todos somos chamados à santidade. Uma santidade concreta, possível e encarnada no cotidiano. Assim como Francisco, somos convidados a refletir a beleza do Evangelho e da vocação que recebemos, certos de que, como recorda o Papa Francisco, «a santidade é o rosto mais belo da Igreja» (Gaudete et Exsultate 9).

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